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A pirâmide de Pyongyang

A pirâmide de Pyongyang

A pirâmide de Pyongyang:
O Ryugyong arranha-céu de mais de 330 metros de altura no centro da Coreia do Norte, Pyongyang. Seu formato de foguete atende aos fetiches atômicos dos ditadores norte-coreanos (Foto: Philipp Meuser)
O Ryugyong arranha-céu de mais de 330 metros de altura no centro da Coreia do Norte, Pyongyang. Seu formato de foguete atende aos fetiches atômicos dos ditadores norte-coreanos (Foto: Philipp Meuser)

Não é só com armas que a Coreia do Norte sabe blefar. O país que em abril colocou toda a comunidade internacional em alerta após várias ameaças de um ataque nuclear também usa da arquitetura para mascarar suas fragilidades e simular uma prosperidade ilusória. O futurista hotel Ryugyong, cravado no centro da capital Pyongyang, daria inveja a diretores de ficção científica. O prédio seria o cenário perfeito para as gravações de clássicos como Blade Runner e Guerra nas Estrelas. Um insólito arranha-céu de mais de 330 metros de altura que segue o fetiche atômico dos ditadores norte-coreanos, formando uma espécie de foguete espelhado prestes a decolar. Três “asas”, cada qual com um “espinho” de 100 metros de altura, criam um contorno triangular e pontiagudo. Sobre seu eixo central, surge um cone de 40 metros, onde seriam instalados sete restaurantes de alta gastronomia, com vista panorâmica para a nublada Pyongyang. Ao longo de seus 105 andares, diversas casas noturnas e um cassino. Todos inacabados. Um delírio incompleto e abandonado, com direito a todos os luxos que o capitalismo pode oferecer.
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A pedra fundamental do Hotel Ryugyong foi lançada em 1987. Embora mais pareça um pinheiro de natal, seu nome significa “cidade dos salgueiros” – uma alusão a Pyongyang. O regime sonhava em superar os 226 metros de altura do hotel Westin Stamford, inaugurado um ano antes em Singapura pela empreiteira sul-coreana SsangYong. Um arranha-céu cilíndrico que não chega aos pés da excentricidade de seu rival norte-coreano. Segundo o plano inicial dos engenheiros de Pyongyang, as obras não deveriam durar mais de dois anos. A meta era fazer sua inauguração coincidir com os preparativos da cidade para a 13ª edição do Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes. Em preços da década de 1980, o país mobilizou o equivalente a 1,5 bilhão de reais para a execução do projeto. Na época, o montante representava 2% do PIB norte-coreano.
O festival ocorreu e vivenciou naquele ano sua maior edição. Mais de 22 mil jovens de 177 países desembarcaram em Pyongyang para defender a “solidariedade contra o imperialismo”. Para os oito dias de atividades políticas e esportivas, a Coreia do Norte conseguiu concluir o estádio Primeiro de Maio Rungrado, que é até hoje o maior do mundo, com espaço para 150 mil pessoas. É lá que ocorre todos os anos o célebre festival Arirang. Um evento de proporções massivas, no qual multidões apresentam coloridas e sincronizadas coreografias para narrar a história do país. Os estudantes estrangeiros só não encontraram pronto o grande prédio que o regime havia prometido para hospedá-los. Era 1989 e a União Soviética, o maior credor do regime norte-coreano, entrou em colapso. Sem verbas, a obra não conseguiu contornar seus atrasos. As inaugurações eram sempre adiadas até que, em 1992, o abandono foi definitivo. O hotel foi isolado e esquecido no centro de Pyongyang, apenas com sua estrutura de aço e concreto.
A falta de revestimento acelerou a degradação de seus 360 mil m². No final da década de 1990, peritos da Câmara de Comércio da União Europeia na Coreia do Sul analisaram a estrutura do Hotel Ryugyong e concluíram que sua estrutura era irreparável. O cimento empregado pela empreiteira do regime era de baixa qualidade e foram identificadas graves falhas estruturais. Havia fortes indícios de que o prédio era torto. Os poços dos elevadores estavam todos desalinhados. Inóspito e condenado, o Ryugyong acabou apelidado pelos escassos turistas de Pyongyang de “hotel fantasma” e “pirâmide mal-assombrada”.
O que antes era apenas o fim da decrépita construção de um prédio tornou-se, em 1994, o início de uma crise econômica generalizada. O corte das generosas ajudas financeiras da União Soviética não comprometeu apenas a obra do Ryugyong. Também levou à falência as já frágeis cadeias produtivas da Coreia do Norte, quebrando sua produção agrícola. O episódio ficou conhecido como a grande fome da Coreia do Norte. Não havia mais combustíveis para as máquinas e fertilizantes para os campos. Para agravar ainda mais a situação, em 1995 chuvas torrenciais colocaram o país em absoluta carestia.
Embora não haja cifras oficiais, observadores das Nações Unidas afirmam que mais de três milhões de pessoas morreram vítimas de subnutrição entre 1994 e 1998. Os editoriais do Rodong Sinmun, periódico oficial do regime, pediam à população que enfrentasse a crise humanitária com o mesmo fervor que uniu seus antepassados ao “presidente eterno” Kim Il-Sung. Nos bastidores, o governo estabelecia regimes específicos para cada categoria de trabalhadores. 700 gramas de cereais para “proletários ordinários” e 900 gramas para “proletários industriais privilegiados”. Não fosse a China, o país entraria em total colapso. Pequim assumiu o lugar de Moscou nos suportes financeiros a Pyongyang. Cerca de 77% do combustível e 68% dos alimentos da Coreia do Norte passaram a vir como doações chinesas. Jamais a Coreia do Norte sobreviveu sem a ajuda de seus vizinhos.

O futurista hotel Ryugyong, cravado no centro da capital norte-coreana, Pyongyang, daria inveja a diretores de ficção científica (Foto: Philipp Meuser)
O futurista hotel Ryugyong, cravado no centro da capital norte-coreana, Pyongyang, daria inveja a diretores de ficção científica (Foto: Philipp Meuser)

Ao longo de toda a grande fome, o hotel Ryugyong permaneceu da forma como foi deixado. Interditado e inacabado. Em 2002, a Coreia do Norte afirmou que não precisava mais da ajuda humanitária promovida pelas Nações Unidas. Com a estabilização da oferta de matérias primas, combustíveis e alimentos, surgiram especulações em países vizinhos de que a construção seria retomada. Na interpretação de japoneses e sul-coreanos, inaugurar um edifício tão megalomaníaco recuperaria a estima da população e sua credibilidade no regime – mesmo após quatro anos de fome.
Acertaram. O Ryugyong voltou a ser construído em 2008, sob ordens do então líder Kim Jong-Il. A prioridade era revestir o edifício, tanto para conter sua deterioração quanto para eliminar do centro da capital a aparência decadente e abandonada de um prédio idealizado pelo governo. A conclusão da fachada faraônica da “pirâmide mal-assombrada” ficou por conta da empreiteira egípcia Orascom. Com o novo contrato, o regime retomou a antiga ideia de incluir no hotel espaços para atrações típicas do mundo ocidental. Em favor de sua imagem, Kim Jong-Il aceitava flexibilizar suas doutrinas e permitir o acesso de empresários de grandes corporações àquele espaço. Os engenheiros e arquitetos egípcios se entusiasmaram. Prometeram "uma mistura de hotelaria, apartamentos residenciais e centro financeiro" até 2012, ano em que o país celebrou o centenário de nascimento do presidente eterno Kim Il-Sung.
Quando o hotel era apenas uma estrutura abandonada, a Coreia do Norte se desdobrava para evitar que quaisquer imagens vazassem para seus “inimigos”. O Ryugyong manchava tanto a já frágil reputação do país, que raramente aparecia em fotografias oficiais de Pyongyang sem um bom tratamento de photoshop. Isso quando não era simplesmente cortado.
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Após 25 anos de construção, sua fachada está completa e todas as janelas foram instaladas. Por dentro, continua oco. Vazio, sem móveis, acabamento e, acima de tudo, hóspedes. Os poços de elevadores ainda estão tortos e há quem arrisque que suas colunas podem ceder a qualquer momento. O Hotel Ryugyong escondeu seu esqueleto de concreto e ganhou a estética de um prédio financeiro. Já poderia ser confundido com um dos super-hotéis de Dubai não fosse sua forma estranha, de nave espacial dos anos 70. Com placas cromadas e vidros espelhados, retoma num sonho totalitário a estética típica do capitalismo.
A revista norte-americana Esquire classificou o Hotel Ryugyong como “o pior prédio da história da humanidade”. Uma espécie de “castelo de Cinderela” dominando com mau gosto a paisagem de Pyongyang. No entanto, há quem veja o edifício com um olhar especulativo. Empresas como a alemã Kempinski AG já negociam há vários meses a compra dos direitos de administração do prédio. Seus executivos acreditam que o fim do regime comunista está próximo. Com seu colapso, apostam que haverá uma avalanche de investimentos estrangeiros. Sanções financeiras aplicadas pelas Nações Unidas após o último teste de mísseis da Coreia do Norte, em 2012, impedem que o grupo hoteleiro assine contratos com o regime. No início deste ano, a empresa alegou que “pausou” as negociações devido a “questões de mercado”. Nega, contudo, que tenha desistido do projeto. Caso o regime não consiga concluir a obra, a companhia que o assumir terá que arcar com um custo de dois bilhões de dólares.
Como a maioria dos edifícios de Pyongyang, o hotel Ryugyong só tem alguma função nas histórias de ficção científica. Se sua construção não fosse interrompida, em 1992 teria sido o maior hotel do mundo. Hoje é o 47º mais alto e tem o 5º maior número de aposentos. Três mil quartos que jamais hospedarão os raros turistas que visitam a isolada Coreia do Norte.
 
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